13 outubro 2019

UMA CAIXINHA DE MARAVILHAS



No Dia das Crianças, falhei ao tentar encontrar uma foto minha naquela fase da vida. Fui então vasculhar a memória em busca de brincadeiras que me faziam feliz enquanto menina. A lembrança que me vem mais forte é a de ir a uma pracinha perto de casa com o meu pai. Só eu e ele. Ele levava um jornal ou uma revista. Eu levava uma caixinha para guardar novos exemplares para a minha coleção de sementes de maravilha.

Hoje, quando pesquiso "sementes de maravilha", não encontro nada parecido com as sementes que eu colecionava. Certamente, este não era o nome correto daquilo que eu colhia no chão da pracinha, mas compreendo como era incrível para aquela menina, nos seus 7 ou 8 anos, colecionar "maravilhas" dentro de uma caixinha. Talvez, por isso, esta recordação tão forte. Então, perdoem a falta de precisão no detalhamento botânico do que realmente eram aquelas sementes.

A praça não era tão grande e a atividade não era muito intensa. Meu pai ficava ali sentado em um dos bancos, comentando comigo sobre o que lia. Tentava transformar matérias sobre política, comportamento ou saúde em algo minimamente compreensível para uma menina daquela idade. Eu, vez ou outra, corria para mostrar a ele uma semente com um detalhe diferente - uma mancha mais avermelhada, ou mais esverdeada, ou ainda um exemplar de tamanho surpreendente. E eu tecia teses elaboradas sobre o que poderia causar as diferenciações entre elas. Na minha ingenuidade, eu também ensinava coisas novas para o meu pai.

Ali ficávamos horas, debaixo da sombra das árvores, sentindo o vento fresco do domingo, com nossos interesses tão distintos, mas tão unidos por aquela vontade de simplesmente estar juntos e aprender juntos. Ele, buscando se informar sobre o mundo através daqueles papeis e eu, aumentando meus conhecimentos botânicos sobre as sementes de maravilha. Mas juntos, e tentando, a todo tempo, compartilhar um pouco, um com o outro, sobre o que aprendíamos com aquelas nossas atividades.

Tenho até hoje este entusiasmo com pessoas de interesses diferentes dos meus. A vontade de aprender coisas novas com o simples convívio, quando o único interesse comum seja realizar trabalhos que se complementam, ou simplesmente aproveitar a sombra das árvores. Tomar alguns copos de cervejas num bar, ou algumas xícaras num café. Embora, na vida adulta, não seja tão fácil encontrar pessoas dispostas a enxergar aprendizado nas diferenças.

Ao reviver de longe esta lembrança da infância, olhando as árvores de uma outra praça, distante mais de 3,5mil km da que eu frequentava com o meu pai, fiquei me perguntando em que momento da vida aprendemos a nos agrupar só com os iguais. A olhar o outro e classificar, sem raciocinar muito sobre tudo o que isto implica. Em que momento trocamos o escutar curioso por conhecer pelo olhar seletivo do "este, aqui, não cabe".

Aquele hábito com o meu pai me ensinou que há sempre aprendizados escondidos nas relações que podem ocorrer entre as pessoas. Não importa quão distintos sejam os seus interesses. Contanto que elas estejam dispostas a dialogar, a se surpreender, a duvidar das suas certezas, a compartilhar, a aprender. Sigo com essa vontade de acolher o diferente, porque sei que cada ser humano pode ser uma caixinha de maravilhas.

Sei que nem sempre serei acolhida por aqueles com quem eu ache que poderia aprender algo novo. Como tantas vezes já aconteceu. Mas cuido para que isto não acabe com a minha vontade de encontrar aprendizado no outro, porque sei que está aí um pouquinho da beleza da vida.  E eu estou disposta a tentar e tentar.

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