22 setembro 2016

O QUE TEM O MEU NARIZ?



Não tenho nada contra cirurgia plástica. Principalmente se for pra reparar uma insatisfação em relação ao corpo que acaba causando problemas emocionais. Se uma pessoa está infeliz com sua orelha, barriguinha, nariz, seio ou seja lá o que for, e tem como fazer uma cirurgia plástica para melhorar a aparência com responsabilidade, com um bom profissional que lhe passe total segurança em relação ao procedimento e ao resultado, por que não? Principalmente se essa insatisfação é tão grande que acaba paralisando a pessoa.

Muita gente coloca a cirurgia plástica no patamar da futilidade, mas, às vezes, a pessoa é tão insatisfeita com determinado detalhe do próprio corpo que aquilo a paralisa. Não é só um problema estético. Não é que a pessoa apenas não se sinta bonita, ela não se sente capaz. Não se sente capaz de apresentar um trabalho na escola, de conquistar a pessoa de quem gosta, de ter sucesso numa entrevista de emprego, tudo isso porque não se sente capaz nem mesmo de se encarar e se admirar diante do espelho. Se a cirurgia plástica é feita nesse sentido, de corrigir um detalhe estético que traz tanta insatisfação, nesse caso, acho até que é muito bem vinda.

Só que antes de decidir se submeter a algo tão sério, é muito importante refletir profundamente para buscar entender de onde vem essa tal satisfação. Digo isso porque, quando crianças ou adolescentes, nós costumamos acreditar no que nos contam sobre a nossa aparência. Alguém aponta: seu nariz é feio. Você paralisa e concorda. Como se aquela pessoa tivesse acabado de descobrir um segredo seu. Você concorda com ela e diz pra si mesma: "é mesmo, é feio". Baixa a cabeça e deixa aquela opinião de um terceiro virar verdade dentro de você e acabar com a sua autoestima. Quando o que deveríamos fazer é perguntar: "Quem disse que é feio?" E deixar o nosso amor próprio falar mais alto. Mas... nem todo mundo consegue.



Confissão:
Eu odiava o meu nariz

Eu mesma já pensei muito em fazer rinoplastia. Eu odiava meu nariz. Se você procurar fotos antigas minhas, vai ver que eu só fazia fotos de perfil, de ladinho, para disfarçar o meu nariz. Não faz muito tempo, eu cheguei a marcar num cirurgião plástico para fazer uma avaliação e começar o processo para realizar o procedimento. Foi bem na época em que eu estava para finalizar a minha transição. Já ia cortar toda a parte alisada e ficar só com o cabelo natural. E antes da consulta eu me peguei me perguntando. "Será que o meu problema com o meu nariz não é o mesmo que tinha com o cabelo? Será que eu não gosto do meu nariz, porque, como o meu cabelo, também não é o que eu vejo nas revistas?"

Cancelei a consulta e resolvi me dar um tempo para avaliar isso. Eu queria analisar profundamente se eu não gostava do meu nariz, apenas por ele fazer parte de um conjunto de características que estão fora do "padrão de beleza ditado pela sociedade". Peguei o dinheiro que separei para a cirurgia e fui viajar. Ahahahaha! Melhor coisa que eu fiz. Hoje não enxergo o meu nariz como desproporcional em relação ao meu rosto. Ele também não é torto. Ele só não é fino. E eu entendi que eu não preciso do nariz da Xuxa.

Fotos antigas, sempre de perfil...


Acompanhando o caso
Ludmilla


Esses dias, uma famosa cantora do funk brasileiro apareceu com o nariz retocado e eu fui dar uma olhada em algumas matérias que tratavam da novidade. Entre os comentários, como é de se esperar, muita gente amando o resultado e muita gente julgando a rinoplastia. Vejam só: muitas pessoas a acusavam de não aceitar a sua negritude. Associaram o fato de ela ter se submetido a uma rinoplastia à única e exclusiva possibilidade de sua não aceitação enquanto menina negra. Ela estaria tentando se embranquecer com um nariz fino.

Agora eu pergunto: isso é justo? Antes de tudo, não cabe a ninguém ficar apontando o dedo na cara do outro para avaliar se esta pessoa precisava ou não de uma cirurgia plástica. Se todo mundo praticasse o "Cada um sabe de si" estaria bem mais fácil viver. Esqueçamos o caso Ludmilla e vamos pensar na mulher negra. Ela nunca poderá fazer uma rinoplastia sem passar por esse tipo de julgamento? A mulher negra nunca poderá estar insatisfeita com o seu nariz, mesmo que isso não se resuma ao fato de ele não ser fino? Ela não poderá nunca achar que o nariz é desproporcional para o seu rosto? Que tem uma parte que poderia ser menos proeminente que a outra? Enfim, sempre será racismo?

Não é bem por aí. Quando se fala da rinoplastia, nós, negras, devemos sim refletir profundamente se realmente precisamos da cirurgia, ou se estamos influenciados por um certo padrão de beleza vigente. Se não estamos felizes com nosso nariz apenas porque ele não é fino. Mas, se a insatisfação vai além... se você olha no espelho e tudo o que vê é o nariz... se é desproporcional, proeminente... por que não?



E o contorno
para afinar o nariz?

Eu fiz as pazes com o meu nariz. Tanto que agora ando me questionando até na hora de fazer aquele truque de maquiagem para afinar o bonito. Toda vez que estou me maquiando e chego na parte dos contornos eu meu pergunto: "Preciso mesmo fazer isso?" E estou na fase de refletir profundamente para entender se esta é só mais uma técnica de maquiagem para harmonizar o rosto ou se, mais uma vez, eu estou tentando alterar uma característica minha que não é aceita segundo os "padrões de beleza ditados pela sociedade".


Do mesmo jeito que eu uso um tom de pó mais escuro que a minha pele para dar profundidade às bochechas, por exemplo, tudo bem eu usar o mesmo recurso nas laterais do nariz para melhorar a angulação do meu rosto? Enquanto não chego a essa resposta, sigo contornando e me divertindo com a maquiagem. Mas é se questionando que a gente evolui, não é mesmo?

E você? O que acha disso tudo? Não me deixe sozinha.

Lá no canal, tem um Maquia e Fala sobre o assunto e uma discussão bem legal nos comentários, vem ver:

2 comentários:

  1. Ameiii o assunto, em casa sempre foi muito falado o assunto Rinoplastia, pois eu sempre quis mudar meu nariz, não uma mudança radical até pq iria ficar desproporcional pelo fato do meu rosto ser bem redondo, mas cofosso que meu nariz me encomoda bastante até hoje, e minha mãe sempre me dizia que quando eu fizesse 18 anos me pagaria uma cirurgia no nariz se eu ainda quizesse, enfim completei os tão sonhado 18 e surpresa ela disse que eu era linda assim , que não precisava de cirurgia nenhuma, eis aí a frustração de uma adolescente que sonhava com essa cirurgia desde os 13 anos, na época me senti traída, porém hj as vezes sinto vontade, porém falta a coragem, tenho medó de fazer e me arrepender , pq é como vc disse em um trecho do vídeo, vai ficar estampado no meu rosto pra sempre, enfim é isso fazer ou não fazer eis a questão! ����

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  2. Maravilhoso Você tratar desse assunto! Principalmente na parte da aceitação, sobre a relação da mulher negra e rinoplastia, eu vejo as pessoas saíndo de uma ditadura e entrando em outra, em que é obrigatório aceitar tudo em si é ponto final. Isso é problemático. Sobre contornos, sei lá, não vejo em mim como uma não aceitação, mas como um elemento a mais da make, pq se a gente for pensar assim, nem vamos noa maquiar, fazemos isso para nos sentirmos mais bonitas, né? Então... Adorei a reflexão, Márcia!

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