08 julho 2016

SOBRE A CASA DE PAETÊ: EU, A MODA E O BLOG



Por um tempo, eu fiquei relutando contra o termo "blogueira". É que muita gente, ao pronunciar essa palavra, carrega o tom para transformá-la em algo depreciativo. Para essas pessoas, a blogueira é alguém que não deu certo em outra coisa e está tentando ganhar uma grana fácil pela internet. E se a blogueira é de moda? Aaaaah! A blogueira de moda é isso aí, só que fútil e superficial. Apontar o dedo na cara do outro é o "novo preto", né?! Até que eu percebi que, ao relutar contra o termo, eu estava dando razão a essas pessoas. Certo? Certo! Então, meu amor, eu sou blogueira! E eu vou explicar como surgiu minha relação com a moda e a minha vontade de bloggar, mas calma aí que lá vem textão.

Quando criança, eu aprendi que eu era feia. Eu aprendi que era feia quando a tia da escola disse que eu não podia ser baliza no desfile; quando ficava por último na escolha dos pares pra dançar quadrilha no São João; quando todos implicavam com o meu cabelo crespo e volumoso (que sufoquei numa trança por anos e depois nos alisamentos); quando, numa briguinha com algum colega, ele gritava um "Sua neguinha!", como se simplesmente falar a cor da minha pele fosse a maior das ofensas. Enfim, um trauma chamado escola!

Eu entendi que não poderia nunca estar entre as meninas mais bonitas e legais do colégio - brancas, olhos claros, cabelos lisos. Eu fui ensinada que aquilo era beleza e o que eu tinha, não. A criança negra experimenta desde cedo o racismo travestido de opinião.

Mas por que todo esse blá blá blá sobre beleza é tão importante? É que, na verdade, não estamos falando apenas de beleza, mas de sentir-se bem vindo, de sentir-se incluído. E quando uma pessoa se sente apartada por essas barreiras invisíveis, ela não se sente apenas preterida, mas também incapaz. Incapaz de conquistar tanto o menino/menina de quem gosta, quanto a carreira com a qual sempre sonhou. Percebe? A autoestima vai além do que se vê diante do espelho. A baixa autoestima, melhor dizendo, espalha uma sensação de total  incapacidade.



Eu e a moda
E foi na moda que encontrei um jeito de me sentir, se não bonita/capaz, ao menos interessante e forte. Mais bacana, mais descolada, mais estilosa. Minhas roupas eram meus escudos. Naquele momento, eu não sabia bem o que eu queria. Eu não tinha um estilo definido, ou uma musa para me inspirar. Eu só sabia que eu não queria ser igual. Por trás das roupas, eu escondia minha insegurança, meus medos, minha baixa autoestima. E era usando esse escudo que eu conseguia peitar o mundo.

Por fora, eu era pura segurança e afirmação. E isso começou, de alguma forma, a refletir na pessoa aqui dentro. Eu comecei a acreditar mais na menina no espelho. A cada exercício com o modo de vestir, eu ganhava mais confiança para enfrentar a vida. Fiquei tanto mais segura pra acreditar que aquela paquera que eu achava que seria mais um amor platônico poderia dar certo (isso quando eu era solteira, obviamente ahahahah!), como diante da minha futura chefe na entrevista pro trabalho que era tudo o que eu queria naquele momento.

Eu e o blog

Aos poucos aprendi que o amor próprio e autoestima são uma arma e que a munição estava em mim, não no "ok!" de ninguém. Quando minhas amigas me convidaram uns anos atrás para escrever um blog de moda junto com elas, eu pensei: por que não? Ali eu já estava mais envolvida com o que hoje eu chamo de moda factual. "Tá todo mundo usando? Também quero"! Mas não foi assim que começou o meu interesse pelo modo de vestir e logo esse mundo chato da "tendência pela tendência" começou a me desinteressar. Foi aí que nasceu a Casa de Paetê. Eu queria um blog que fosse além de um canal para mostrar tendências de moda e dicas de compra, apesar de não saber direito ainda aonde esse "além" iria me levar. E hoje eu entendo exatamente o que eu queria.

Aqui na Casa de Paetê, meu desejo é falar
- de como a moda me traz mais confiança
- de como eu conquistei segurança e afirmação pelo meu modo de vestir
- de como é possível carregar na minha imagem referências de coisas que eu amo e detalhes que me fazem única
-de como se sentir bem diante do espelho não depende do dinheiro que você vai investir nisso, mas de um estudo constante sobre você mesma (e um tantinho de estudo sobre moda também eheheheh!)
- de como é importante olhar pra dentro antes de qualquer coisa
- de como nosso estilo está em evolução constante
- de como a moda invade nossa casa e nos sentimos bem mais acolhidos quando nosso lar reflete nosso mundo interior
- de como nosso modo de vestir pode virar inspiração e se refletir por onde a gente passa fazendo outras pessoas pensarem: Olha lá, também posso!

Como alguém pode chamar isso de futilidade?

Mas sim, vão chamar! Porque  ninguém está a salvo do olhar do outro. Até mesmo dos mais próximos. Quando ouvi de uma amiga da infância que "eu mudei muito e agora me preocupava demais com a aparência" senti que havia algo errado. Assim como sinto que tem algo errado toda vez que eu comento que tenho um blog e imediatamente mencionam a Thassia Naves (que é maravilhosa, mas que não é a representante mor da blogueiras brasileiras, né?!). Percebi que não estava passando a mensagem certa.

Então para ficar bem claro: meu desejo com a Casa de Paetê é espalhar esse "eu posso" por aí! Quem sabe, eu consigo inspirar alguém que já perdeu tempo, assim como eu, sentindo-se feia e incapaz? Quem sabe a gente vai trocando dicas e truques para nos sentirmos mais bonitas, mais completas e deixar o nosso dia a dia bem mais feliz? Quem sabe com mais segurança a gente conquista mais força para transformar nossos sonhos em realidade?

Quem sabe?

1 comentários:

  1. Que lindo... isso é verdade mesmo... descobri seu ig no insta por acaso já tem um bom tempo... e hoje vim parar no blog... e estou amndo... pq me identicido com muito o que vc fala por aqui...com seu estilo...com tudo tudo mesmo... eu fico buscando blog de mulheres negras brasileiras que falaem de moda... de produtos do dia -a dia e encontrei aqui muito do que eu estava buscando... no fundo a gente quer isso... se identificar... se encontrar naquilo que parece com vc...e isso é maravilhoso.. parabéns pelo casa de Paête e muito sucesso!!!

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