01 outubro 2015

BLA BLA BLA: A CAPA DE SETEMBRO DA GLAMOUR

Já é outubro e eu estou aqui bem fora de timing, ainda com a capa da Revista Glamour de setembro martelando na minha cabeça. O motivo: o cabelo da Sheron Menezzes escovado e umedecido numa capa que celebra: 100% Brasil. Eu olhei a revista e estranhei. Mal reconheci a atriz (que é uma das minhas musas-inspiradoras-de-cabelos-naturais, vale frisar). Torci o nariz e pensei: por quê? Depois me voltei contra mim: "Você está virando uma-chata-ativista-do-cabelo-natural-a-todo-custo". Desfiz a minha carinha de nojo e me convenci por alguns minutos que a vida é muito curta pra que ninguém possa se permitir fazer uma escovinha de vez em quando... mas eu só estava arranjando uma desculpa para sufocar meu questionamento/desapontamento. Fato é que a coisa não me desceu. A revista tem como tema 100% Brasil. Viva o país miscigenado! Tão bonito falar assim, né? Uma certa hipocrisia mora aí. Dia desses ouvi Emicida dizer o seguinte no programa de Serginho Groisman: "No Brasil, a miscigenação só é bacana quando clareia"! Claro que essa não é a opinião dele, mas uma visão crítica de como as coisas funcionam. Quantas vezes você já ouviu algo do tipo: "Ela é negra, mas tem traços finos. Nariz fininho, olhos claros: linda!" A negra só vai ser linda se tiver um toque de brancura. É isso mesmo?

Ver a Sheron com esse cabelo escovado e com aspecto de oleoso-meio-molhado me fez pensar nisso. Não é o fato isolado de estar escovado. Até porque discordo dessa onda de "em terra de chapinha, quem tem cacho é rainha". Defendo a liberdade de poder ser como quiser e, principalmente, de poder ser como é! O problema é que a revista celebra a brasileirice, a diversidade. E aí vem e me escova o cabelo crespo pra foto da capa. Pra mim, soou como dizer: "vamos celebrar a miscigenação, mas só se ela clarear um pouquinho o preto". Eu me recuso a engolir isso daqui pra frente.

Vamos pensar pelo outro lado, pra ver se estou exagerando mesmo? As outras atrizes, Paolla Oliveira e Mariana Ximenes, também estão com os cabelos um pouquinho modificados. Úmidos e com esse visual meio "não lavo faz três semanas". No editorial, elas são sereias e acabaram de sair do mar. No caso da Paolla e da Mariana, até entendo que a textura ao sair do mar fosse essa. Mas o da Sheron... Alguém até comentou isso no site da revista, em meio a discussões sobre uso excessivo de Photoshop e disputas opinativas de qual sereia seria a mais bonita, na página da apresentação da capa de setembro, tentando justificar a textura do cabelo da Sheron:



Não, amor, não desmonta, não. Meu cabelo natural úmido não fica parecendo que fiz chapinha e depois passei óleo. Não! Não desmonta. No final, só me resta pensar que a tentativa da beleza da capa da revista foi de padronizar as "sereias brasileiras", ao invés de celebrar as suas diversas formas. E pra agradar os olhos da maioria, vamos alinhar o crespo.



... porque, né, se uma menina de cabelo crespo vai ao salão certamente é pra sair de lá alisada. tsc... tsc... cansativo!

E porque falar sobre isso? Pelo simples motivo de que, sem discussão, nada avança. Pela crença, talvez ingênua, de que quanto mais celebrarmos a beleza em suas diversas formas, mais bonita, igualitária e mais feliz será a geração dos nossos filhos, dos nossos netos e, assim por diante. Não quero ver meus filhos sendo diminuídos pelos coleguinhas pelo simples fato de ter pele preta e cabelo crespo. Infelizmente, tenho plena certeza que os filhos de pessoas que pensam como essas abaixo (infelizmente são tantaaaas) provavelmente irão reproduzir pensamentos como esses:



O que nos resta é tentar fazer com que a nossa autoestima modifique o olhar do outro. Faça o outro pensar: na essência, somos iguais! Aos meus filhos, quero ensinar um orgulho imenso e contagiante de ser simplesmente como somos. E quero poder pensar que revistas serão minhas aliadas no futuro. Principalmente as de moda! No caso da Revista Glamour de Setembro, teria que pular a capa e ir direto no editorial "Poder Afro" que, aí sim, traz a Sheron de cabelos naturais e lindos, me fazendo celebrar a diversidade.

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